E se seu empregador permitisse que você decida onde e quando quer trabalhar?

Você poderia chegar mais cedo para cuidar de um filho, ou trabalhar em casa durante parte da semana. Ou talvez você desejasse reduzir as horas trabalhadas a fim de cuidar de um pai doente. Como é que você seria visto no trabalho caso levantasse a mão para aceitar uma dessas opções?

“Essas normas muitas vezes constam dos regulamentos das empresas, mas informalmente todo mundo sabe que aqueles que as invocam são penalizados”, diz Joan Williams, fundadora e diretora do Centro de Leis de Trabalho na Escola Hastings de Direito, Universidade da Califórnia, se referindo às opções de trabalho flexíveis que alguns empregadores oferecem.

“Inventei o termo ‘estigma da flexibilidade’ para descrever o fenômeno. Estudos recentes constataram que ele continua forte, e funciona de maneira muito diferente para as mulheres e para os homens.”

Para algumas mulheres, isso dá aos empregadores um motivo para que as encarem pela lente da maternidade, o que resulta na forma mais forte de discriminação sexual. Mães são vistas como menos competentes e menos dedicadas ao trabalho, ela diz, mencionando outros estudos.

Até os homens são prejudicados

O que surpreende mais, porém, é que os homens que buscam flexibilidade podem ser penalizados de maneira ainda mais severa que as mulheres, porque a escolha de um regime mais flexível os torna mais femininos e é um desvio do padrão do homem como responsável pelo sustento da família.

Isso pode explicar ao menos em parte porque as opções flexíveis de trabalho –que incluem teletrabalho, redução na jornada semanal de trabalho ou divisão de postos de trabalho entre dois ou mais trabalhadores, para mencionar apenas algumas– não ganharam muita popularidade, ainda que número cada vez maior de organizações as ofereça (ao menos no papel).

Entre 2005 e 2012, os empregadores passaram a oferecer mais opções de administração do tempo e lugar de trabalho por seus funcionários, de acordo com o estudo nacional de empregadores conduzido em 2012 pelo Instituto das Famílias e Trabalho.

Mas os empregadores reduziram as alternativas que permitiriam aos funcionários passar tempo considerável afastados do trabalho em período integral, tais como pausas sabáticas ou transferência de trabalho em período integral para período parcial, e posteriormente retorno ao regime original.

Um grupo de pesquisadores recentemente estudou o estigma da flexibilidade no trabalho de diversos ângulos, em uma série de pesquisas publicadas sexta-feira pelo “Journal of Social Issues”, do qual Williams é co-editora.

Entre outras coisas, os pesquisadores examinaram a questão de licença para homens depois do nascimento de um filho (os pais que optavam por essa alternativa tinham menos chances de promoção e aumento e mais probabilidade de serem penalizados).

Mulheres Ricas

O estudo também examinou a maneira pela qual a percepção quanto ao uso de normas flexíveis pelas mulheres varia entre as classes sociais: as mulheres mais ricas muitas vezes recebem a mensagem de que deveriam ficar em casa, e as mulheres pobres têm maior probabilidade de ouvir que não deveriam ter filhos, para começar.

“Esses estudos demonstram que valores culturais profundamente enraizados, misturando devoção ao trabalho e identidade sexual causam o estigma da flexibilidade”, disse Williams.

No entanto, os estudos deixam claro que muitas famílias norte-americanas apreciam a oportunidade de normas mais flexíveis, especialmente em uma era na qual os papéis de maridos e mulheres na família tendem a se misturar cada vez mais.

Um estudo da Sociedade de Gestão de Recursos Humanos, em 2008, o período mais recente para o qual há dados disponíveis, constatou que 34% dos profissionais de recursos humanos pesquisados indicavam um aumento nos pedidos de arranjos flexíveis, ante anos anteriores.

Os motivos são bastante óbvios, já que número cada vez maior de norte-americanos busca um melhor equilíbrio entre vida profissional e vida pessoal. Proporções quase idênticas de mães e pais que trabalham fora reportam sentir estresse quanto ao balanço entre trabalho e família, constatou recentemente uma recente análise do Pew Research Center sobre dados de pesquisa.

Mas enquanto os pais empregados davam mais importância a um emprego bem remunerado, o estudo constatou que entre as mães na mesma situação a maior preocupação era ter horário de trabalho flexível.

De fato, é possível que mais mulheres tivessem empregos se opções como essas estivessem disponíveis para elas, e se elas se sentissem confortáveis ao usá-las. A proporção de mulheres na força de trabalho dos Estados Unidos vem caindo em relação a outros países desenvolvidos, um fenômeno vinculado ao menos em parte à expansão rápida de políticas familiares positivas por parte desses países, de acordo com um estudo publicado em fevereiro por Francine Blau e Lawrence Kahn, professores de Economia na Universidade Cornell.

Mão de obra feminina

Em 1990, os Estados Unidos tinham a sexta maior proporção de mulheres na força de trabalho, entre 22 países desenvolvidos, com 74% das mulheres entre os 24 e os 54 anos empregadas. Em 2010, porém, a proporção de mulheres empregadas nos Estados Unidos caiu ao 17º posto, com pouco mais de 75% de mulheres empregadas ante mais de 80% fora do país, constatou a pesquisa. Os economistas estimam que a participação de mulheres norte-americanas na força de trabalho atingiria os 82% se elas tivessem acesso a políticas semelhantes às de outros países, que incluem o direito a trabalhar em tempo parcial.

“Talvez tenhamos atingido um máximo e não haja como subir”, disse Blau sobre a porcentagem de mulheres empregadas. “Mas isso sugere que é possível porcentagem mais alta, se trabalharmos na questão do balanço entre vida profissional e vida pessoal”.

A flexibilidade pode representar uma espada de dois gumes, pelo menos no que tange ao avanço das carreiras das mulheres.

Licenças-maternidade longas e remuneradas e a disponibilidade de empregos de tempo parcial poderiam encorajar mulheres que de outra forma optariam por emprego em tempo integral a escolher opções com menor dedicação, explicou Blau. E os empregadores, por sua vez, poderiam promover ou contratar menos mulheres para postos de chefia, se eles acreditarem que elas podem optar por arranjos flexíveis. Na situação atual, as mulheres norte-americanas apresentam maior probabilidade que as de outros países de trabalhar em período integral, e também maior probabilidade de ocupar postos mais altos.

“Se houver uma rede extensa de programas que beneficiam quem quer combinar trabalho e família, isso poderia encorajar as mulheres a assumir um papel mais tradicional”, disse Blau. “É uma questão de equilíbrio. Se você não tem arranjos adequados, é difícil para as mulheres manter seu compromisso para com a força de trabalho e para os empregadores investir na capacitação das mulheres”.

Mas a questão também é uma questão de perspectiva. Para que as mulheres possam exercer essas opções sem que sejam julgadas por isso, é preciso que os homens também as empreguem livremente. Isso requer ver os homens não só como arrimos de família mas como indivíduos dotados das mesmas escolhas que as mulheres.

“Nós não só forçamos as mulheres a seguir a trilha da maternidade mas forçamos os homens a seguir a trilha da paternidade”, diz Kenneth Matos, psicólogo organizacional e diretor sênior de pesquisa e práticas de emprego no Instituto das Famílias e Trabalho. “Tendemos a discutir o que acontece com as mulheres mas não o que acontece com os homens, e imaginamos por que as carreiras das mulheres empacam.”

Afinal, como explica Williams, a pressão sobre os homens não diminuiu.

“O feminismo fala sempre em escolhas –mas escolhas para quem?”, ela questiona. “Até o feminismo pressiona os homens a acatar o ideal da devoção ao trabalho. E se nada mudar para os homens, nada mudará para as mulheres.”

Lei do Salário Igual

Em muitas empresas e também em nível nacional, os trabalhadores não têm ajuda para resolver essas questões. Mas alguns lugares começam a se inspirar em outros países que já colocaram em prática políticas nacionais para promover arranjos mais flexíveis. No mês passado, o Estado de Vermont aprovou uma lei de “salário igual” que, entre outras coisas, permite que trabalhadores solicitem arranjos flexíveis de trabalho e os protege contra retaliações quando o fazem. A lei requer que os empregadores ouçam os pedidos dos trabalhadores ao menos duas vezes por ano, ainda que não os force a aceitá-los.

“A lei tem por modelo regras semelhantes adotadas no Reino Unido e Austrália”, disse Cary Brown, diretora executiva da Comissão Estadual da Mulher em Vermont, “e acreditamos que seja a primeira desse tipo nos Estados Unidos”.

Ainda assim, a maioria dos trabalhadores continua à mercê dos empregadores.

“Não é sistemático, não é confiável, e para muita gente depende de os superiores serem favoráveis a esses benefícios”, disse Ariane Hegewisch, diretora de estudos no Instituto de Pesquisa de Políticas para a Mulher. “Não há garantias”.

Matéria da Folha de São Paulo.