[Depoimento anônimo]

Ninguém no mundo sabe de tudo isso que tô falando agora. É a primeira vez que consigo tocar nessa ferida. Mas é muito, muito importante que nós mulheres sejamos unidas. Fortaleça uma a outra. E espero que a minha história ajude alguém porque eu não tive a ajuda que precisava.

Eu ficava com um cara. Na real, ele era só meu amigo e, quando uma amiga percebeu como ele me tratava, me disse que tava perdendo tempo por não ficar com ele. Quando rolou (beijos, nada demais), lembro de ter sido MUITO bom e, depois disso, começamos a ficar. Isso, em meados de março, abril.

Em novembro foi a primeira vez que rolou. SIM, meses depois. Eu tava prestando vestibular e foi um ano terrível, em muitos aspectos.

Dois meses antes disso, eu tinha parado de tomar anticoncepcional por conta de toda a ansiedade e estresse que eu tinha. Já tava toda desregulada e precisando ir ao médico, mas só parei de tomar mesmo. Usamos camisinha. Ela estourou e só percebemos quando terminamos. Saímos da casa dele direto pra farmácia e tomei a pílula. Foi a primeira vez que tomei na vida.

Achei que tivesse tudo de boa, afinal, já tinha lido estudos de que mulheres que tomam anticoncepcional e querem engravidar precisam parar um ano antes e que a pílula do dia seguinte dificilmente falha, além de ver várias amigas sendo imprudentes e ficando de boa.

Dia 2 de janeiro eu descobri que tava grávida. Meu mundo caiu. Eu nunca quis ser mãe. Eu tinha 18 anos. Tava esperando o resultado dos vestibulares que tinha prestado.

Não fui imprudente. Me cuidei. Enfim, aconteceu.

Logo quando vi o teste da farmácia positivo, fui ao gineco. Quando entrei no consultório ele me avisou que não fazia nenhum tipo de procedimento ilegal. Eu não conseguia parar de chorar. Em dezembro eu já comecei a suspeitar da gravidez, mas minhas amigas e minha mãe falavam que era nóia da minha cabeça. Não podia ser.

Meu melhor amigo na época me sugeriu abortar. Eu não tive coragem. Sou plenamente a favor do aborto e de sua legalização, mas eu não faria algo desse tipo. Eu não tava preparada pra ser mãe, mas também não tava preparada pra fazer isso comigo mesma.

Liguei pro cara, contei pra ele e já avisei que teria aquele filho, independente do que ele ou a família dele fossem dizer. Minha família me apoiou. Meu pai, quando soube, não. Foi o único. Me chamou de vagabunda pra baixo.

Eu e o pai da minha filha tentamos nos relacionar. Foi uma das coisas mais humilhantes da minha vida. Ele tinha vergonha de mim. E eu ainda não superei isso. Não saíamos em público. Não postávamos fotos juntos. Ele não segurava na minha mão. Eu não ficava com ele quando os amigos estavam perto. E, pra contribuir, o tempo todo ele reclamava.

Eu passei em três faculdades federais. Resolvi fazer uma particular na minha cidade, arrumei um emprego e uma barriga imensa. Minha cidade é pequena, então a parte mais difícil era andar com a cabeça levantada.

Todo mundo apontava o dedo. Ria de mim. Comentava. Eu tentava não dar ouvidos. Fingir que estava tudo bem. Mas não estava. Eu não aceitava minha gravidez. Desejava todos os dias que algo acontecesse, mesmo que isso tirasse a minha vida. Sim, é doentio, mas era como me sentia. Eu me culpo todos os dias por ter desejado isso.

Eu terminei com ele. Os meus amigos ficaram do meu lado o tempo todo. A minha mãe, as minhas irmãs e ela nasceu. Nunca vou me esquecer do parto. Quando ouvi o choro dela, também chorei. Não de felicidade, mas de medo, angústia, raiva e, principalmente, tristeza. Caralho, como eu tava triste.

Quando peguei ela pela primeira vez, tudo mudou. Ela era minha, só minha e eu faria qualquer coisa por ela. Chorei a primeira semana inteira logo depois que ela nasceu, mas eu só permitia que minha mãe me ajudasse a cuidar dela. Eu fazia tudo sozinha. Amamentava, trocava fraldas, dava banho… isso me fortaleceu.

Até que 20 dias depois o pai dela veio com duas historinhas singulares de que algum parente tinha duvidado da relação de paternidade dele para com ela. Contei pra minha mãe. Mais humilhação. Já não bastasse toda a palhaçada dele e de sua mãe em toda a minha gravidez.

A minha mãe, deixando qualquer leoa no chinelo, disse que faríamos o teste de DNA e que ela bancaria porque ele não aceita qualquer imbecil entrar na minha casa e me humilhar daquele jeito. A família dele e ele ficaram perplexos, mas, claro, aceitaram fazer o exame.

Imagina só, você nos primeiros 40 dias após o parto, tentando entender a mudança radical na vida, tentando aceitar toda essa novidade, entrar com a sua filha nos braços em uma clínica responsável por exames de DNA. Eu não consigo explicar o nível da minha humilhação, da minha vergonha.

O exame saiu pouco mais de vinte dias depois. Eles ficaram sem procurar pela neta/filha um mês. Quando o resultado saiu provando que ela era sangue deles, o pai se mudou pros EUA, onde ficou um ano. Era o “estágio perfeito, uma oportunidade única”. Quando voltou, ficou menos de um mês e se mudou por três meses pro MT, outra oportunidade única.

Ela já tinha 1 ano e meio quando ele voltou pra cidade e, num telefonema, me avisou que ela dormiria lá. Ela não ia. Ela não conhecia o pai dela. Ele nunca tinha sido pai.

Na tentativa desesperada de barrar isso, entrei com uma ação judicial. Isso já faz dois anos. Hoje ela acabou de completar 4 e eu não vejo a minha vida diferente. Não teria mudado uma vírgula porque tudo me trouxe onde tô hoje.

Em resumo, manas, não se deixem levar, nem pela família de vocês. Nós, mulheres, somos autossuficiente, fortes e independentes. A minha gravidez foi absurdamente traumática, ninguém é obrigada a passar por algo que não queira ou não está disposta. Eu fiz isso, não sei por qual motivo, mas não me arrependo. Foi difícil (e como), mas isso me tornou uma mulher, uma mãe (que pode não ser perfeita, mas dá o melhor todos os dias). Nem todos os dias são bons, mas ver o sorriso dela, ouvir ‘eu te amo’ sempre que ela chega perto de mim, recompensa todo o sofrimento.

Mesmo assim, quem puder evitar passar por tudo isso, fica meu depoimento.

Anônima.